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Nelson Paes Leme

Respeitáveis setores da mídia brasileira se insurgiram contra o discurso da presidente Dilma defendendo autocrítica mais acurada sobre a violação de direitos humanos pelos Estados Unidos. Alguns editoriais e artigos de brilhantes jornalistas e intelectuais brasileiros chamam a atenção para o fato de que não se pode comparar as violações desses direitos por uma ditadura caduca como a cubana com os eventuais da maior democracia do mundo, a norte americana. Não se pode mesmo.

Os Estados Unidos dizimaram, desde quando Colt, Winchester e Smith & Wesson implantaram o tambor girante a substituir o cano duplo das garruchas, praticamente todos os peles vermelhas de seu território, numa faxina étnica sem precedentes. Aniquilaram uma etnia inteira que já lá estava, curtindo sua vida frugal, suas matas virgens, suas cachoeiras e suas cascatas.

Sempre acobertados pelos rígidos princípios puritanos e pelos altos ideais dos "founding fathers", simplesmente aniquilaram praticamente todas as tribos existentes à época do descobrimento da América por Cristóvão Colombo. Hoje lá restam poucos aculturados remanescentes desse massacre, alguns alcoólatras, outros milionários ou em ambas as situações.

Depois, na conquista do Sul e expansão de seu território e na Guerra da Secessão, boa parte desses contritos puritanos e democratas convictos, ceifou incontáveis vidas e implantou na região um regime de intolerância racial que foi apenas suplantado, no ranking mundial dessa ignomínia, pela Alemanha nazista, a Itália fascista e a África do Sul do apartheid. As ações de perseguição e morte de negros toleradas (e muitas vezes incentivadas) pelas autoridades locais de diversos condados dominados pela Ku Klux Klan, até hoje são registros indeléveis de atentados brutais contra os direitos humanos dos negros pelo mundo a fora.

Já depois da Revolução Industrial, investiram contra os anarquistas de modo também brutal, promovendo julgamentos sumários e tribunais de exceção, como no episódio histórico emblemático da saga de Sacco e Vanzetti, registrada no inesquecível filme de Giuliano Montaldo sobre o tema. Mais tarde, nos anos quarenta e cinqüenta, a intolerância e o desrespeito aos direitos humanos desse primor de democracia, voltou-se com toda a fúria contra boa parte do operariado, dos intelectuais e dos artistas norte americanos com a caça às bruxas do macartismo, deixando inúmeras vítimas dessa perseguição e da imensa onda de desrespeito aos direitos humanos de cidadãos de todas as colorações ideológicas. Alguns até sem filiação a qualquer ideologia foram barbaramente perseguidos apenas pelo fato de discordarem desses métodos e de se solidarizarem com seus colegas e amigos.

Agravada pela Guerra Fria, essa intolerância macartista extrapolou as fronteiras da América do Norte e invadiu violentamente a América Latina, implantando e ajudando a implantar, com o auxílio inestimável da CIA, do FBI, do Departamento de Estado e do Pentágono, regimes militares de exceção e intolerância radicais, em todo o Continente, deixando um rastro de mortes, crueldade e violações de direitos humanos de toda a sorte e para todos os gostos, como os registrados pelo Grupo Tortura Nunca Mais no Brasil e pelas Madres de La Plaza de Mayo na Argentina, sem falar da explosão do carro do ministro chilelo Orlando Letelier na "Embassy Row", no coração de Washington, tão bem retratado no excelente livro dos cientistas políticos norte americanos John Dinges e Saul Landau, "Assassination On Embassy Row"

Quando se fala na brutalidade covarde sem paralelo e absolutamente inaceitável sob todos os títulos e ângulos que se aborde, do episódio repugnante do 11 de Setembro, esquecemo-nos (mas os japoneses não) do absurdo nuclear de Hiroshima e Nagasaki, promovido pelo Enola Gay e patrocinado pela grande democracia puritana do Norte, como resposta ao não menos abominável massacre de Pearl Harbor.

Para além de tudo isso, porém, resta ainda o grande atentado aos direitos humanos do povo cubano de comerciar seus produtos livremente no comércio internacional. Por motivos que escapam ao bom senso e absolutamente sem qualquer explicação, a maior democracia do Planeta mantém por meio século, em estado de quase miserabilidade, a ilha caribenha, através de um bloqueio econômico desumano e ridículo, que só faz recrudescer o estado de necessidade de seus habitantes e fortalecer o autoritarismo local, a diluir qualquer possibilidade de retomada do estado democrático de direito.

Ainda bem, para as nossas relações de amizade e fraternidade com Tio Sam, que a presidente Dilma não entrou nesses detalhes sórdidos e se fixou, diplomaticamente, apenas no episódio de Guantánamo.

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