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Carlos Nina*

 
O Brasil está vivendo uma experiência inédita. Ainda que tenha havido situação semelhante por qualquer outro motivo, nenhuma teve a extensão e a repercussão internacional da atual. A componente da mobilização pelas redes sociais não é novidade. Tem sido usada para muitos motivos, há muito tempo, tais como para que, num determinado dia, não sejam usados telefones; ou para que não seja consumido combustível de determinada bandeira; ou, ainda, para manifestação de protesto em defesa do meio-ambiente ou contra a violência. Esses são apenas alguns dos inúmeros exemplos. Porém, com a intensidade e a extensão do que tem acontecido nos últimos dias, nunca houve. Muitas, também, têm sido as explicações para esse fenômeno. Qual a verdadeira? Não sei, nem acredito que alguém saiba.
O estopim teria sido o aumento das tarifas de transporte. Mesmo que isso seja verdade, não é o real motivo, porque não haveria tais revoltas se não houvesse desemprego, se os salários, como manda a Constituição Federal, suprissem as necessidades do cidadão e de sua família, para sua manutenção, aí incluídos não só alimentação, saúde, educação, segurança e lazer, mas, também, transporte, do qual todos dependem para ir para o trabalho, para a escola, para a igreja, para o mercado e o estádio.
O que motivou esse levante não foi o aumento da tarifa, nem o fato de os veículos de transporte serem sucateados, não oferecerem conforto para seus usuários, não os haver em quantidade suficiente para atender à demanda, não oferecerem segurança e muito menos não respeitarem horários, notadamente no que diz respeito aos ônibus.
Fato é que o poder econômico das empresas de transporte impõe seus interesses ao interesse público e as instituições se curvam a esse desvio através da corrupção que se espraia desde a definição das linhas até sua concessão, sem esquecer a omissão e a conivência na fiscalização, tanto dos veículos quanto do cumprimento das normas para a exploração das linhas.
Não se pode, também, esquecer que, de outro lado, as instalações que deveriam atender aos usuários sofrem pelos mesmos vícios: licitações fraudulentas, superfaturamento, material de péssima qualidade, manutenção insatisfatória e igualmente superfaturada, realimentando o círculo vicioso da corrupção.
Não foi, portanto, o aumento das tarifas de transporte que produziu esse movimento, mas a corrupção, a roubalheira desenfreada que, se fosse pelo menos mantida em níveis compatíveis com a imperfeição do homem e da sociedade, permitiria a prestação de serviços públicos de educação, de saúde, de segurança, de transporte, moradia e lazer para todos, com alguma decência.
Mas a corrupção no Brasil é algo tão enraizado e crescente que não causa sequer surpresa que parlamentares e chefes de Poderes executivo tenham inscrição e sejam beneficiários do Bolsa Família, farsa filantrópica que, se efetivamente alivia a miséria de muitos, assim o é apenas para disfarçar a institucionalização da compra de votos, uma vez que a contrapartida que seria o investimento na educação e na infraestrutura simplesmente não existe na proporção necessária para atacar eficazmente a miséria. E não é por falta de dinheiro, mas porque crescem em quantidade não só os integrantes das quadrilhas no Poder Público, mas o tamanho das suas “comissões”.
Também não é o custo dos estádios a motivação dos movimentos. Esse é apenas mais um fato no rol de inúmeros outros que surgem nas placas improvisadas dos insurgentes, nas quais se lê desde os desvios das verbas da previdência, da educação, da saúde e da segurança, até o aumento do preço da ração dos totós.
Esse movimento, portanto, que se espalhou pelo País, era inevitável. E é apenas o começo, porque a corrupção cegou o Poder Público e este não se dá conta de que é nele que está a origem de toda essa revolta. Os agentes do Poder público (sim, há exceções ...) têm sido movidos pelos seus próprios interesses e querem mais é que o povo se exploda, como dizia com sabedoria personagem de Chico Anysio, que interpretava exatamente um parlamentar.
Prova dessa indignação da massa com a classe política é a revolta contra aqueles que se atrevem a levantar bandeiras no movimento, como papagaios de pirata. Oportunistas, como têm bradado os que, no movimento, têm discernimento da mensagem que querem dar.
Mas não só partidos políticos querem tirar proveito de movimentos como esse, quando ganham a repercussão que este tem tido, ocupando espaços privilegiados na mídia internacional.
Instituições que deveriam e poderiam interferir para atacar a origem dos problemas, não o fazem. Quando o fazem, é timidamente, apenas para cumprir rituais ou ocupar espaços na mídia, sem, contudo, agir eficazmente.
É emblemática neste momento a campanha nacional movida pelo Ministério Público contra a PEC 37, alcunhada de PEC da impunidade, sobre o que já escrevi (http://www.consensual.com.br/). Sob a alegação de que se trata de campanha institucional, veículos oficiais têm sido usados nessa campanha, que, se tratasse realmente de interesse público, seria para discutir a origem da impunidade e não para combater uma Proposta de Emenda Constitucional. Campanha movida, portanto, não para combater a impunidade, mas pelo poder. Tanto que nunca foram usados carros oficiais em campanha para garantir saúde, educação, moradia, segurança e transporte para a população.
Essa campanha também foi inserida no meio da multidão, que sequer conhece o texto da combatida PEC. E se soubesse que o Ministério Público é o defensor da sociedade, que poderia exigir educação, saúde, segurança e transportes decentes para a população, com certeza faria com os cartazes dessa campanha o mesmo que têm feito com as bandeiras dos partidos oportunistas.
Da mesma forma a OAB, que agora se oferece como interlocutora, omite-se ou é conivente no desrespeito estatal à garantia constitucional de defensores públicos em todos os lugares para a defesa dos necessitados, e alimenta convênios com o próprio Poder público, atendendo interesses contrários ao que proclama a Constituição federal.
Agora, porém, que esse movimento ganhou tamanha projeção, é mais quem quer se aproveitar. Inclusive os que tem interesse na instabilidade, para fomentar o arbítrio e restabelecer a ditadura. Mas isso parece não preocupar ninguém. Estão todos ocupados em busca de poder ou de tirar proveito da situação, até quando se derem conta de que ninguém ficará livre das consequências.
 
*Advogado e jornalista
 
 
 
*Advogado e jornalista
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