Sobre Carlos Nina

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Carlos Nina

É fácil falar de Kalil Mohana, pela riqueza de sua personalidade, pela extensão de suas experiências, pela sua presença marcante na base da formação de gerações no Maranhão. Difícil é resumir essa grandeza, mesmo parte dela, no espaço limitado de um artigo. José Cursino Raposo Moreira conseguiu, em belo artigo publicado em O Estado do Maranhão, condensar parte desse vazio cheio de presença marcante, indelével.

Também o celebrante da missa de 7º dia em sufrágio da alma de Kalil soube defini-lo: conhecimento, alegria e simplicidade. Por isso não causou surpresa que sua Missa não tenha sido carregada pela sombra pesada de funeral, mas iluminada pela boa lembrança que sempre foi Kalil e a leveza que a fé da família Mohana soube imprimir à súplica que o culto representa.

Conheci Kalil no Colégio dos Maristas, onde foi meu professor de História. Criativo, polêmico, alegre, simples, entusiasmado e provocador, foi alvo de meu primeiro artigo porque, com o prestígio que Kalil gozava entre os alunos, tinha inevitável influência nas eleições do Grêmio Cultural Coelho Neto. Tal artigo custou-me, durante a solenidade de posse da Diretoria do GCCN, a ameaça pública de expulsão pelo Diretor. Ao terminar a solenidade, segundo soube depois, o Diretor cedeu ao apelo conjunto do próprio Kalil e dos Irmãos Maristas Pio e Lourenço, também queridos e admirados mestres. O Diretor reconsiderou a decisão e aplicou-me uma suspensão de dias, que não cumpri.

Kalil me deu, assim, a primeira aula prática de respeito à democracia e à liberdade de expressão. Ainda que tal não tivesse acontecido, teria sido impossível não ter sofrido a influência de Kalil Mohana. Não que ele impusesse esta ou aquela idéia, mas porque ele sabia instigar a curiosidade, estimular ao estudo, ao raciocínio, à dialética. Suas aulas de História eram um passeio no tempo e no espaço, pois não abordava um fato histórico sem localizá-lo na geografia, estimulando a visualização, como se tivesse o dom da narrativa tridimensional ou a capacidade de transportar seus ouvintes para lugar e o momento ao qual se referia.

Encerrava suas aulas com suspense sobre a sequência dos fatos, desafiando os alunos a pesquisar para saber, por exemplo, o que aconteceria a Montezuma (II) após a chegada de Hernan Cortés a Tenochtitlán, capital asteca; qual seria o destino de Danton e Robespierre após a Revolução Francesa; quem matou Rasputin; ou o que fazia D. Pedro às margens do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822.

Permeava tudo com indagações éticas e filosóficas sobre as condutas que constituíam os fatos e, assim, ensejava a análise dos valores morais e seu enfrentamento em nosso cotidiano.

Há professores que falam, tentam passar informação, instruir. Outros, que educam, que se comunicam, transmitem e ensinam a buscar informações, interpretá-las, questioná-las. Uns dão o peixe. Outros ensinam a pescar. Kalil foi um destes. O primeiro ou o que melhor soube despertar-me o hábito do estudo. Não fui o único que tive esse privilégio. Isso foi rotina entre os alunos de Kalil. Ele não foi apenas um professor, um mestre, mas um educador, na mais ampla extensão do significado desse termo, conquistando a amizade de seus ex-alunos, que, assim, desfrutavam daquele contato de permanente aprendizado, como de fato era qualquer encontro com o querido mestre, por mais relâmpago que fosse. Kalil tinha sempre alguma informação a compartilhar, uma pergunta instigante a ensejar leitura e reflexão. Isso seus sobrinhos confirmaram na bela mensagem que deram ao final de sua missa de 7º dia.

Por essa conduta linear, libertadora, que o transformou em líder involuntário da juventude com a qual convivia, Kalil foi incluído no rol dos subversivos discriminados e/ou perseguidos pelo Golpe de 64. Foi o que me fez concluir um encontro forçado que tive quando “convidado” pela Ditadura para falar sobre artigos de minha autoria. Deveria declarar que eram, no mínimo, orientados por Kalil Mohana. Neguei a afirmação. Não assinei nada. E convenci-me da importância dos ensinamentos de Kalil para lutar pela cidadania, liberdade e democracia. Foi o que decidi fazer, sem jamais me vincular ou submeter a ninguém, exercitando livremente meu direito de opinar.

Optar pela clandestinidade era uma tentação tão romântica quanto a dos poetas que desejaram morrer tuberculosos. A coragem, que, para uns, está na frieza de ser capaz de praticar a tortura psicológica ou física contra subjugados, garantida pela impunidade que reina nos porões das ditaduras, ou executar roubos, seqüestros e emboscadas terroristas, é, também, lutar de peito aberto, pelo verbo, sem medo das represálias que consistiam em sofrer nas mãos dos valentões dos porões. Por isso, muitos não tinham a coragem de dizer, escrever e assinar o que realmente pensavam.

Hoje, quando se vê o caos em nossas escolas e universidades; o desrespeito nas salas de aulas, dos alunos para com seus professores e destes para consigo mesmos; a derrocada dos valores morais; o desinteresse de professores e sua falta de compromisso com a formação de seus alunos, é reconfortante lembrar que realmente fomos privilegiados em ter tido um professor como Kalil.

Obrigado, querido e amado professor Kalil Mohana.

 

 

(São Luís, MA-Brasil, 31/12/2010)

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